“A sua beleza é bem maior/ Do que qualquer beleza/ De qualquer
salão…” – Salão de Beleza, Zeca Baleiro.
A música Salão de Beleza foi lançada pelo cantor de MPB Zeca
Baleiro em 1997, quando o movimento feminista já havia se
consolidado em várias partes Brasil. Quando Baleiro exalta a beleza
feminina na música, ele não faz apenas um louvor ao corpo natural
da mulher, mas também uma crítica, ou ataque, aos padrões de
beleza impostos pela sociedade, padrões nos quais somos imersos
desde os nossos primeiros contatos com o mundo e que, assim como
hoje, também eram fortes naquela década. Assim, Salão de Beleza é
mais do que uma música para o entretenimento, mas um discurso social
em defesa da minoria feminina.
De acordo com Oliveira (2011), estudar as canções do compositor
Zeca Baleiro requer compreender o significado de “hibridação”
(ou: hibridização, hibridismo), que, segundo Canclini (2008, p. 19
apud OLIVEIRA, 2011, p. 16), entende-se como os “processos
socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que
existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas,
objetos e práticas.” Assim, ao realizar a análise crítica do
discurso da composição em questão, respaldamo-nos em diversas
áreas do conhecimento, fundindo-as, a fim de identificarmos com
maior precisão a mensagem do compositor através da música (umas
das formas de linguagem).
O modelo físico de mulher magra e extremamente vaidosa promovido
pelo mundo da moda através dos meios de comunicação de massa
cultivou uma cultura de desvalorização do corpo quando este se
encontra fora dos padrões definidos já naquela década e que, de
alguma forma e infelizmente, persiste até hoje. Consequentemente, a
desvalorização e, às vezes, a autodesvalorização leva o homem (o
ser humano) a atos ou discursos preconceituosos e discriminatórios
para com o feminino que se distingue dos padrões requeridos. Simone
Beauvoir (1949 apud SARTI, 2004, p. 35) disse que “não se
nasce mulher, torna-se mulher”. De modo que ser mulher, para
Beauvoir, seria mais do que a concretização através da simples
naturalização do sexo (é mulher porque tem vulva), mas do
reconhecimento de si mesma no que concerne a ser mulher. Sendo,
assim, mulher, um ato psicológico de construtivismo, de descoberta e
de aceitabilidade contínua.
Zeca Baleiro, na composição que integra seu primeiro álbum Por
Onde Andará Stephen Fry?, expressa desinteresse acerca da
frequência da mulher aos salões de beleza, deixando claro que “A
sua beleza (a da mulher) é bem maior/ Do que qualquer beleza/ De
qualquer salão…” (parênteses inseridos) Neste sentido, Baleiro
vai concordar com o que propunha Simone Beauvoir: aceitar-se através
do descobrir-se e, assim, se construir, i.e., ‘tornar-se mulher’.
A presença da crítica à influência midiática surge já no oitavo
parágrafo, com referências a personagens da moda, da música e do
cinema: Linda Evangelista, modelo canadense, e Isabelle Adjani, atriz
e cantora francesa. Conhecendo a beleza admirável de ambas perante
os padrões requeridos pelo mundo artístico, o cantor faz a seguinte
colocação: “Belle! Belle!/ Como Linda Evangelista/ Linda! Linda!/
Como Isabelle Adjani…” Colocando, desse modo, todas as demais
mulheres em beleza equiparada à das internacionais Linda Evangelista
e Isabelle Adjani. Aqui, a intenção do autor não seria a de
diminuir a beleza de algumas mulheres em benefício de outras, mas
afirmar que todas são tão “belas” e tão “lindas” quanto
Linda Evangelista e Isabelle Adjani. E reforça a admiração pela
mulher na nona estrofe em um coro de malandros, personagens
persistentes das composições tradicionais de samba que galanteiam a
mulher. Este arranjo atribui um caráter polifônico ao discurso de
Baleiro, pois é um grito coletivo de combate aos padrões que apenas
cultivam o preconceito e levam aos atos discriminatórios, seja em
casa, na rua, no trabalho, em qualquer lugar.
Infelizmente, o mundo ainda não amadureceu o suficiente para
entender a originalidade da beleza feminina sem a necessidade de ter
que atribuir-lhe a estética exigida pelo mundo artístico da moda,
da música ou do cinema. Como bem coloca Baleiro, este é ainda um
“Mundo velho/ E decadente mundo/ Ainda não aprendeu/ A admirar a
beleza/ A verdadeira beleza”. Ora, toda mulher é “mais linda que
a rosa/ debruçada na janela”.
Sugestão:
Sejamos todos feministas (título original: We Should All Be
Feminists), da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, baseada
em uma palestra que deu em 2012 no TEDxEuston. A palestra está
disponível no site TEDxEuston e na plataforma de vídeos YouTube:
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