Eu, eu mesmo…
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu…
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…
Que crianças não sei…
Eu…
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei…
Eu…
Tive um passado? Sem dúvida…
Tenho um presente? Sem dúvida…
Terei um futuro? Sem dúvida…
A vida que pare de aqui a pouco…
Mas eu, eu…
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu…
Eu (CAMPOS apud SANTOS,
WENDELL BATISTA/PE, 31/11/2015).
Analisar um discurso poético certamente não é tão simples quanto
um conto, uma crônica, narrativa ou outros gêneros, sejam eles
literários ou não. Ainda estes outros gêneros exigem discernimento
e bom senso de quem se arrisca a inferir (analisar também é isto,
uma vez que o autor da análise levanta hipóteses ou afirmativas
sobre o autor do discurso) sobre o que o autor propõe, as suas
ideologias, seu espaço no tempo etc.
Fernando Pessoa, além de ter escrito em seu próprio nome, escreveu
também através de heterônimos, a quem deu a completa existência
como pessoas (nome, data e local de nascimento e de morte, mapa
astrológico, características físicas, personalidade etc.). Neste
caso, ao analisar um poema de Álvaro de Campos, o mais diferente de
todos os heterônimos de Pessoa, estamos analisando um discurso de,
pelo menos, dois sujeitos: Fernando Pessoa e Álvaro de Campos. A
estes dois, agregarão mais outros sujeitos à medida que esta
análise for feita, se propagar e formar uma rede de discursos.
O poema Eu, do heterônimo Álvaro de Campos, deixa-nos
isentos de qualquer interpretação sobre o tempo, a não ser o da
própria leitura e aqueles que todos sabemos existir: passado,
presente e futuro. (vss. 13-15) Existe interlocução (diálogo) à
medida que Campos parece persuadir o sujeito leitor (ou mesmo
ouvinte) da pessoa incógnita que ele mesmo é num impasse entre o
imperfeito e o divino intercalados pela dúvida. (vs. 10) Esta
característica do discurso, Maingueneau (apud BRANDÃO, MUSEU
DA LÍNGUA PORTUGUESA, 2018) chama de “dialogismo” e “interação”,
para indicar que existe, respectivamente, diálogo e interação
entre, no mínimo, dois sujeitos. Contudo, o discurso de Campos
também é formativo, pois atua sobre o sujeito leitor/ouvinte, mesmo
que não use imperativos ou persuasivos convites como “DIGA NÃO AO
PRECONCEITO!” E nos convence da singularidade do seu “eu”
incógnito e absoluto sobrecarregado dos cansaços do mundo (vs. 2)
e, ainda assim, em posição superior ao das estrelas, que lhe
“saíram da algibeira” (vss. 6, 7).
Maingueneau (id.) também fala sobre “polifonia”, quando
um discurso possui várias vozes. Neste caso, para alguns talvez
exista polifonia apenas se considerarmos Campos como um porta-voz de
Pessoa, o que significaria que um sujeito (Campos) encontra-se munido
de duas vozes (ele mesmo e seu sujeito criador). Mas, devemos notar
que o sujeito que produz o discurso – o eu –, fala sobre
as estrelas e diz qual fora a atitude delas: “[…] deslumbrar
crianças…” (vss. 6-8) Essa pode ser mais uma voz intrínseca no
eu deste poema – a voz das estrelas –, pois tiveram uma atitude,
um objetivo pelo qual abandonaram a algibeira do sujeito eu para
subir ao céu.
O discurso de Eu não precisa se preocupar com o espaço
histórico-geográfico de outros interlocutores porque não se trata
de uma epopeia (isto é, um poema narrativo) ou um texto qualquer que
precisemos nos localizar num certo tempo e espaço para seguir
compreendendo o desfecho da história. Contudo, a linguagem de Campos
não é exatamente contemporânea, mas o fato de se tratar de um
texto literário faz com que ele ganhe flexibilidade no vocabulário
e na linguagem que utiliza sem restrições. Sem dúvidas, o discurso
de Fernando Pessoa através de Álvaro de Campos encontra-se
sobrecarregado não apenas dos cansaços do mundo, mas de ideologias
para além do egocentrismo, do imperfeito e do divino que apenas o
poeta poderia desvendar completamente.
Comentários
Postar um comentário
Seus comentários são bem-vindos. Caso deseje enviar informações, sugestões, correções etc., também poderá escrever para letras.wbs@gmail.com.