[…] a língua é uma parte pequena do corpo, mas se gaba de grandes
coisas. Vejam como basta uma chama muito pequena para incendiar uma
grande floresta! A língua também é um fogo. A língua representa
um mundo de injustiça entre os membros do nosso corpo, pois
contamina todo o corpo e incendeia por inteiro o curso da vida; suas
chamas vêm da Geena. Pois toda espécie de animais selvagens,
de aves, de répteis e de animais marinhos pode ser domada e tem sido
domada pelos humanos. Mas nenhum humano pode domar a língua. Ela é
indisciplinada e prejudicial, cheia de veneno mortífero. Com ela
louvamos a Jeová, o Pai, e com ela amaldiçoamos homens que vieram a
existir “à semelhança de Deus”. Da mesma boca saem bênçãos e
maldições. – Tiago 3:5-10a, NM (grifo nosso).
A carta que leva o nome de seu escritor foi produzida antes de 62
d.C. No primeiro século, assim como em toda a história da
humanidade, a língua foi encarada como uma prática social que
exerce poder, seja a nível individual ou sobre grupos de pessoas.
GEHENNA, the Greek word translated hell in the common version,
occurs 12 times. It is the Grecian mode of spelling the Hebrew words
which are translated, ‘The valley of Hinnom.’ This valley was
also called Tophet, a detestation, an abomination. Into this
place were cast all kinds of filth, with the carcasses of beasts, and
the unburied body of criminals who had been executed. Continual fires
were kept to consume these. Sennacherib’s army of 185,000 men were
slain here in one night. Here children were also burnt to death in
sacrifice to Moloch. Gehenna, then, as occurring in the New
Testament, symbolizes death and utter destruction, but in no
place signifies a place of eternal torment. (WILSON, 1942, p. 891)
GEENA, a palavra grega traduzida inferno na Versão Rei James,
ocorre 12 vezes [no Novo Testamento]. Este é o modo grego de
escrever as palavras hebraicas traduzidas “O vale de Hinom.” Este
vale também foi chamado Tofete, [que significa:] uma
detestação, uma abominação. Ali eram lançados todos os tipos de
imundície, carcaças de animais selvagens e os corpos de criminosos
não sepultados (por não “merecer”). O fogo contínuo era
mantido para consumi-los. O exército de 185 mil homens de
Senaqueribe foi morto aqui em uma noite. Aqui, crianças também eram
mortas em sacrifício a Moloque. Geena, contudo, conforme ocorre no
Novo Testamento, simboliza morte e destruição total, em
nenhuma ocorrência significando um lugar de tormento eterno.
(colchetes e parênteses inseridos na tradução)
Os versos bíblicos citados são trecho de uma carta de um certo
Tiago, líder da comunidade cristã de Jerusalém no primeiro século,
que se dirige “às doze tribos que estão espalhadas pelo mundo”
(Tiago 1:1, BP), isto é, aos judeus da Diáspora (Dispersão).
Ao comparar o poder da língua à capacidade de destruição do fogo
que vem da Geena, o escritor persuadiu (e ainda o faz) seus leitores
a adotarem uma nova prática discursiva e social.
Atualmente, utiliza-se meios de comunicação de massa para persuadir
pessoas a aderirem novas práticas (estilos de vida, moda, movimentos
sociais, credos etc.), mas, predominantemente, levá-las ao
entretenimento irrefletido que sustenta uma sociedade que se
desenvolve sobre ideais capitalistas e conservadores.
O processo de manipulação em massa se intensificou com o
aparecimento do jornal, no século XIX, e, no século XX, com o
desenvolvimento dos meios eletrônicos de comunicação. Mas não
havemos de esquecer que a oralidade e os gestos comunicativos
constituem-se como os meios de comunicação de massa mais
primitivos. É inevitável que a nossa maneira de pensar não se
altere de alguma forma sob a influência desses meios de comunicação
e muitas áreas do conhecimento são influenciadas por eles.
Entre os meio de comunicação de massa, o que tem maior público é
a televisão. Se olharmos o panorama das cidades de qualquer tamanho,
no centro ou na periferia, veremos uma quantidade impressionante de
antenas nos telhados. (ARANHA & MARTINS, 2005, p. 63)
Os analistas críticos do discurso apontam para os perigos
relacionados a este tipo de submissão que, de maneira bastante
sutil, leva os mais desatentos a adotarem (ou crerem) determinados
estilos, como o consumismo, o ódio (na maioria das vezes disfarçado
de “opinião”), a alienação política e social etc. Contudo, ao
longo dos anos, tem-se observado uma gradativa repercussão da
reivindicação de direitos e deveres e desconstrução de padrões
impostos “de cima para baixo” heterogeneizando o gosto de uma
crescente parte da população e rompendo com o passado ou inovando-o
por dar-lhe uma nova face.
O exercício da “Cidadania em uma era de exclusão” (OLIVEIRA &
COSTA, 2007, p. 85) requer revestir-se de uma nova prática
discursiva que reflita nas atividades cotidianas criando um firme elo
entre os sentidos de palavra e ação com efeitos sociais positivos.
Caso contrário, a língua será apenas “um mundo de injustiça …
[que] contamina todo o corpo e incendeia por inteiro o curso da
vida”. – Tiago 3:6 (NM, colchetes inseridos).
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